O Paradoxo da Escolha
Faz anos que nĂŁo vejo uma teoria tĂŁo afinada com a cultura da sociedade moderna. Se vocĂȘ nĂŁo ler este post pode estar deixando de conhecer o mundo atual.
Estamos condicionados a pensar que mais Ă© mais. Parece-nos uma verdade evidente â daquelas que nĂŁo requerem demonstração â que quanto maior o nĂșmero de opçÔes maior Ă© nossa liberdade e maior o nosso nivel geral de satisfação. Barry Schwartz, professor de Teoria Social e Ação Social da Universidade de Swarthmore, escreveu The Paradox of Choice: Why More is Less (O Paradoxo da Escolha â Porque menos Ă© mais) para provar que podemos estar errados.
Dito claramente, nunca houve tantas opçÔes e em tudo quanto nos nosso dias. Carros, telefones celulares, programas de computador, cremes dentais, filmes, blogs, livros, biscoitos, planos de seguro, bonecas, mĂșsicas, parques de diversĂ”es, marcas de margarina, pĂĄginas da internet, restaurantes, religiĂ”es e relacionamentos â virtualmente cada possibilidade da vida arrasta atrĂĄs de si uma mirĂade de opçÔes e subopçÔes que cruzam-se e multiplicam-se promiscuamente â coisa sem precedentes na histĂłria da civilização, em que se costumou definir o valor de cada coisa pela sua escassez.
âA maioria das pessoas acha que a diversidade de opçÔes Ă© uma coisa boa. Afinal de contas, associamos escolha com autonomia, controle, independĂȘncia e resultados desejados. Na realidade nĂŁo Ă© esse o casoâ.
O paradoxo, segundo Schwartz, é que pensamos que queremos mais escolhas, mas quanto mais opçÔes temos menos satisfeitos ficamos. Os tempos de escassez são invariavelmente vistos nostalgicamente, e com algum acerto, como tempos mais felizes.
Schwartz identifica quatro possĂveis razĂ”es para essa insatisfação com a diversidade de opçÔes:
1. O custo da oportunidade. Nossas decisĂ”es sĂŁo maculadas por uma vantagem especĂfica que tivemos de abrir mĂŁo no ato de fazermos determinada escolha. Analisando duas opçÔes, vocĂȘ pode acabar concluindo que cada uma oferece algo que a outra deixa de oferecer; vocĂȘ percebe que, escolhendo uma, vocĂȘ estarĂĄ invariavelmente perdendo alguma coisa que a outra opção podia garantir. Trata-se do custo da oportunidade: quanto mais alternativas vocĂȘ considera, maiores os custos de oportunidade de uma decisĂŁo.
2. Arrependimento. HĂĄ tambĂ©m o peso das opçÔes integrais que deixamos de fazer. âSe aceito um emprego com um bom salĂĄrio, posso me arrepender de nĂŁo ter aceito um emprego numa boa localização. Posso me arrepender atĂ© mesmo de nĂŁo esperar por um emprego hipotĂ©tico com uma boa localização e um bom salĂĄrio. Todas as outras possibilidades diminuem o prazer da minhas escolhaâ.
3. Capacidade de adaptação. Nossa capacidade de adaptação pode tambĂ©m trabalhar contra nĂłs, quando uma decisĂŁo que parecia a princĂpio empolgante e inteiramente satisfatĂłria perde gradualmente o brilho, ao ponto de deixar-nos insatisfeitos com a escolha original.
4. O peso da comparação. Finalmente, como estamos constantemente comparando-nos com as outras pessoas, acabamos concluindo sempre â e com todo o acerto â que alguĂ©m sempre estĂĄ sempre em situação mais favorĂĄvel.
Com base em como encaram a diversidade de opçÔes, Schwartz divide as pessoas entre maximizadores e satisfazedores. Os maximizadores buscam incessamente e a qualquer custo a opção mais vantajosa â vasculham todas as lojas de todos os shoppings atĂ© encontrar o sapato que oferece o melhor custo-benefĂcio. Os satisfazedores, por outro lado, procuram uma opção que lhes pareça satisfatĂłria para o critĂ©rio que determinaram para si mesmos. Assim que encontram uma opção que lhes pareça boa, param de procurar.
A evidĂȘncia Ă© de que nĂŁo apenas os maximizadores gastam uma parcela muito significativa do seu tempo fazendo decisĂ”es, mas tendem ainda a ser menos felizes com as decisĂ”es que fizeram. Gastam mais tempo arrependendo-se e comparando-se com os outros ao seu redor, torturando-se com as opçÔes mais vantajosas do que a que fizeram.
O paradoxo estå em que a diversidade de opçÔes pode produzir não a liberdade, mas a paralisia.
Texto retirado do Blog A bacia das Almas
E esse vĂdeo Ă© sobre a palestra do autor no TED.


